O ESTADO DE SÃO PAULO - 08-10-2004
O MELHOR DE TUDO J.A. DIAS LOPES Muitas pessoas se espantam com a prodigalidade de algumas festas de casamento, em que pais milionários gastam fortunas oferecendo aos convidados das bodas dos filhos alimentos preciosos e bebidas raras. Na verdade, há pouco o que estranhar. O banquete nupcial sempre se prestou à exibição de riqueza e à afirmação social. A liberação da gula e os excessos etílicos constituem os ápices do ritual. Na Idade Média e na Renascença, a cerimônia selava a aliança entre as casas reinantes ou principescas e permitia que a nobreza exibisse à plebe todo o seu poder e paixão pelo luxo. Um dos banquetes nupciais mais espetaculares da história aconteceu no Palazzo Vecchio, em Florença, no ano de 1600, quando Maria de¿ Medici, filha do grão-duque da Toscana, casou com Henrique IV, rei da França. A ostentação até que trouxe sorte aos noivos. Embora Henrique IV tivesse o dobro da idade de Maria de¿ Medici e fosse um incorrigível mulherengo, a união se mostrou duradoura e resultou em vários filhos, entre os quais o futuro rei francês Luís XIII. O mordomo do grão-duque, Giovanni del Maestro, organizou os festejos. Mas os efeitos teatrais ficaram a cargo do célebre arquiteto e cenógrafo maneirista Bernardo Buontalenti.Para modelar as compulsórias estátuas de açúcar, ele convocou o famoso escultor flamengo Jean de Boulogne, que na Itália virou Giambologna. Foram servidos 24 pratos frios e um número equivalente de preparações quentes. Ao se aproximar damesa central, a futura rainha da França quase desmaiou de emoção ao ver sobre a toalha bordada em ouro e pedras preciosas uma imponente estátua de açúcar na qual seu noivo aparecia montado num grande cavalo. Após farta distribuição de queijos e frutas, caíram do teto, entre nuvens de fumaça, as imagens das divindades mitológicas Juno e Minerva. A seguir, auxiliares do mordomo substituíram as mesas por outras de espelho e cristal. Cercadas por vales e fontes artificiais, estatuetas de ninfas e jovens pastoras, ornadas com flores e frutas, deram ao ambiente uma aparência bucólica. Paradoxalmente, Maria de Medici foi acolhida em Lyon, na França, com umbanquete medíocre. Um cronista italiano qualificou a comida de "rústica e ordinária". Para ambas cerimônias foram montados enormes bolos de noiva. Tanto quanto se sabe, esse adereço obrigatório no banquete nupcial começou a ter arquitetura monumental durante a Renascença, na Itália, graças ao açúcar, quando os navegadores de Veneza passaram a trazer do exteriororaro e caro ingrediente. As cidades de Florença e Milão foram as primeiras a incorporar a novidade. Mas a simbologia do bolo que os noivos cortam e saboreiam durante a festa, acompanhados pelos parentes e convidados, originou-se anteriormente. Desde a Antiguidade, considera-se de bom augúrio que, em determinado momento da solenidade, o casal compartilhe umalimento. O gesto costuma ser associado à liturgia da divisão do pão, símbolo da vida, praticado em várias religiões. É um instante mágico. Evoca a focaccia que os noivos gregos e romanos comiam e o sacramento cristão da Eucaristia ou ceia do Senhor. Na Renascença, o bolo alcançou dimensões exageradas. Segundo a lenda, o que foi preparado para as núpcias de Ludovico Sforza, duque de Milão, com Beatriz. No final do século 15, possuía o formato do palácio do noivo. Era tão gigantesco que as pessoas atravessavam suas portas. Também podiam comê-lo, por ser inteiramente de açúcar. Na França, acredita-se que o bolo monumental foi introduzido em 1533, pela italiana Catarina de Médici, prima de Maria de¿ Medici, ao casar com o futuro rei francês Henrique II. No seu banquete nupcial havia um que primava pela suntuosidade. A noiva era conhecida pela profunda devoção às sobremesas. Alguns lugares fazem bolos diferenciados. Os de Vendée, na França, berço tradicional de monarquistas e católicos conservadores, apresentam a forma de brioche redondo, com até 1,30 metro de diâmetro e chegama pesar 35 quilos. Os de Paris, no final do século 19, eram carolinas empilhadas na forma de cone e recebiam onomede croquembouche, expressão francesa que significa ¿crocantes na boca¿. Na Inglaterra vitoriana, o bolo de casamento incorporou diversos andares, colunas brancas, cobertura de marzipãoufondant. Atingia cerca de 2 metros de altura e pesava aproximadamente 150 quilos. No Brasil, persiste a tradição do bolo de casamento. Entretanto, se a festa nupcial não for encerrada com a distribuição de bem-casados, perderáum pouco da graça. É umpequenodoce, formadopor dois pequenos discos de massa, à base de farinha de trigo ou fécula de batata, ovos e açúcar, recheados comdoce de leite ou leite condensado fervido na lata. Antigamente, levava creme de ovos, às vezes goiabada ou geléia de frutas. Após a montagem, recebe um banho de calda grossa de açúcar. Em seguida, costuma ser embalado individualmente e amarrado com laços de fita. Delicioso e popular, o bem-casado oculta significados eloqüentes. "Segundo a tradição bíblica, Deus criou primeiro o homem, Adão, e depois a mulher, Eva", explica Rosa Maciel, editora do Guia de Noivos, publicado em São Paulo. "Em seguida, uniu-os como se fossem uma só pessoa. O bem-casado simboliza essa predestinação, o encontro de dois seres distintos que se completam." Apesar de brasileiro, tem um pé em Portugal. Surgiu provavelmente para adoçar os batizados das bonecas e os aniversários das crianças. Parece haver ascendido às festas de casamento por razões sentimentais das meninas de outrora. A influência portuguesa aparece na massa. A base do bem-casado é teoricamente um pão-de-ló, criação lusitana. No princípio, recheavam no com ovos moles, outra mania portuguesa. Ainda se apresenta assim no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, predomina o doce de leite. Outro recheio comum é o leite condensado cozido na própria lata. O bem-casado pode não ser considerado um doce luxuoso. Mas doceiras inventivas às vezes o utilizaram na composição do bolo de noiva. Nesse caso, ajudam a requintar a arquitetura da preparação e a reforçar a saga de luxo do banquete nupcial. |
BEM-CASADOS
INGREDIENTES
Massa
6 ovos inteiros
6 colheres (sopa) de açúcar
1/2 colher (café) de fermento em pó
14 colheres (sopa) de farinha de trigo peneirada
Recheio
1/2 kg de doce de leite
Calda
2 xícaras (chá) de açúcar para 1/2xícara (chá) de água morna
Manteiga para untar e farinha de trigo para polvilhar a assadeira
PREPARO
*Na batedeira, juntar os ovoscom o açúcar e bater por 15 minutos, até obter um composto fofo e aerado.
Retirar da batedeira e adicionar lentamente o fermento, misturando por, no máximo, 1minuto.
*Acrescentar a farinha de trigo peneirada e misturar delicadamente,usando uma espátula de furos grandes (ou uma escumadeira) para continuar aerando a massa.
*Numa assadeira untada e enfarinhada, ir pingando a massa com uma colher de sobremesa, formando pequenos bolinhos com cerca de 4 centímetros de diâmetro. Manter um espaço entre cada bolinho, para a massa crescer.
*Assar em forno pre aquecido a 250ºC, por cerca de 4 a 5 minutos, até a massa dourar.
*Retirar da assadeira e dar formato aos bem-casados unindo os bolinhos, dois a dois, com o recheio de doce de leite.
*Para a calda, misturar o açúcar na água morna, fora do fogo. Mergulhar os bem-casados rapidamente e, aos poucos, nessa calda (sempre fora do fogo) e com a ajuda de um garfo, virá-los na calda, para ficarem molhados por inteiro. Escorrê-los no próprio garfo, de encontro à panela. Retirá-los e colocá-los de preferência sobre uma grade, para secarem.
*Se for necessário, pingar um pouco de água morna na calda, durante o preparo, para evitar que resseque.
*Servir os bem-casados embrulhados em papel celofane, papel crepom e lacinhos de fita.
Rendimento: 30 a 40 unidades
Receita preparada pela Mariza Doces
Rua Padre Garcia Velho, 56,
tel. (11) 3815-6699 , São Paulo, SP